Dor, rigidez, inchaço e dificuldade para realizar tarefas simples podem fazer parte da rotina de quem convive com artrite ou artrose. Ambas afetam as articulações e podem comprometer movimentos, força e independência ao longo do tempo. Nesse processo, a Terapia Ocupacional lida com as limitações provocadas pelas doenças. O objetivo é preservar a capacidade de realizar experiências que fazem parte da vida pessoal, doméstica, profissional e social.
O diagnóstico e o tratamento clínico da doença devem ser conduzidos pelo médico responsável. A TO pode contribuir, de acordo com as necessidades de cada pessoa, para controlar sintomas, preservar funções e melhorar o desempenho nas atividades cotidianas.
O trabalho visa principalmente as funções necessárias para realizar as atividades do cotidiano. Há orientação para proteção articular, adaptações e estratégias para preservar a autonomia. Esse cuidado não acontece de forma isolada e pode ser em paralelo ao cuidado médico. Já falamos por aqui como a TO se integra a outras áreas. Dessa forma, a Terapia Ocupacional considera a doença, seus sintomas e os impactos que eles provocam na independência da pessoa.
Artrite e artrose têm diferenças
A artrite é um processo inflamatório que normalmente atinge uma ou mais articulações do corpo, como as mãos, os joelhos e os cotovelos. Ele é mais frequente em adultos mais velhos, mas também ocorre em pessoas de diferentes idades. A inflamação gera desde dores e sensibilidade até dificuldades para movimentar a articulação.
Os sintomas incluem atrofia muscular, fraqueza, sensação de calor e vermelhidão na região afetada. Além disso, é comum crepitação ou rangido durante a movimentação. Em alguns casos, a evolução da doença leva a deformidades articulares.
No caso da artrite, não se trata de uma única condição, existindo diferentes tipos, com causas e características próprias. A artrite reumatoide, por exemplo, é uma doença autoimune em que o sistema imunológico passa a atacar tecidos do próprio organismo, provocando inflamação nas articulações. A artrite psoriática está associada à psoríase, enquanto a artrite séptica ocorre quando uma infecção atinge uma articulação. Já a artrite gotosa está relacionada ao acúmulo de cristais de ácido úrico nas articulações, provocado pela gota.
Também existem a artrite reativa, que pode surgir após algumas infecções, e a artrite idiopática juvenil, que afeta crianças e adolescentes. A chamada artrite degenerativa está relacionada às alterações e ao desgaste das estruturas articulares, Em alguns casos, esta última está associada ao envelhecimento, a fatores genéticos e ao excesso de peso.
A dor da artrite varia de acordo com o tipo da doença e com a articulação afetada. Pode aparecer durante os movimentos ou mesmo em repouso e vir acompanhada de rigidez, inchaço, sensibilidade e cansaço. Quando esses sintomas começam a interferir na rotina, é importante buscar avaliação médica. Logo, o próximo passo é integrar a Terapia Ocupacional para identificar causas e iniciar um tratamento adequado.
Por sua vez, a artrose, também chamada de osteoartrite, é uma doença que envolve alterações e desgaste da cartilagem que reveste as extremidades dos ossos nas articulações. Com a progressão dessas alterações, podem surgir dor, rigidez, crepitação, inflamação e dificuldade para movimentar a articulação.
Essa doença é mais comum com o avanço da idade e afeta especialmente joelhos, mãos, quadris e coluna. A perda progressiva de mobilidade e flexibilidade torna as tarefas diárias mais difíceis. Os sinais aparecem quando a pessoa precisa permanecer em pé, caminhar, subir escadas, utilizar as mãos ou realizar movimentos repetitivos.
As duas enfermidades provocam muita dor e comprometem a caminhada com liberdade, por exemplo. Por isso, é fundamental uma avaliação para diferenciar essas condições e definir o tratamento indicado.
Como a Terapia Ocupacional ajuda quem tem artrite ou artrose?
Abordar a artrite e a artrose junto ao paciente começa por analisar o impacto que os sintomas provocam na sua vida. Muitas vezes a dor impede alguém de abrir um pote, vestir uma roupa, preparar uma refeição, trabalhar ou tomar banho sem ajuda. É evidente a perda funcional, o que precisa ser acompanhada.
É nesse ponto que a Terapia Ocupacional atua, pois o especialista avalia como a condição afeta as atividades do cotidiano. A partir daí, se desenvolvem estratégias para que a pessoa consiga realizá-las com mais segurança, menor esforço e menos sobrecarga das articulações.
O TO ensina formas de proteger as articulações, orientar o uso adequado da força, adaptar objetos e ambientes, confeccionar órteses e trabalhar movimentos e funções comprometidos pela doença. O objetivo é adaptar uma atividade e preservar a autonomia. Isso permite que a pessoa continue participando das atividades que fazem sentido em sua vida.
Em qual momento procurar ajuda?
O tratamento com terapia ocupacional integra o cuidado em diferentes momentos.Llogo após o diagnóstico, o acompanhamento pode auxiliar a aprender estratégias de proteção articular e a organizar as atividades de maneira a evitar sobrecargas desnecessárias.
Durante períodos de dor mais intensa, o terapeuta ocupacional avalia também a necessidade de uma órtese de repouso ou de outro recurso que auxilie na proteção e no posicionamento da articulação. Quando há perda de força, dificuldade para segurar objetos, abrir potes ou girar maçanetas, a intervenção contribui para preservar a função das mãos.
A TO é ainda indicada quando a pessoa começa a perder independência. Dificuldades para se vestir, tomar banho, cozinhar, cuidar da casa ou realizar a própria higiene são sinais de que as limitações da doença já estão interferindo diretamente na rotina.
No retorno ao trabalho, o terapeuta ocupacional analisa as atividades profissionais, orienta mudanças na forma de executá-las e propõe adaptações no ambiente para reduzir sobrecargas. Em situações de pós-operatório, a atuação do TO contribui para a recuperação da função e para a retomada gradual das atividades, de acordo com a indicação da equipe responsável pelo tratamento.
Desafio diário
Atuar sobre limitações motoras, de força, mobilidade e sensibilidade que dificultam a realização das atividades rotineiras é tarefa do TO. No autocuidado, é comum haver dificuldade para abotoar uma camisa, amarrar os sapatos, calçar meias, entrar no boxe ou lavar determinadas partes do corpo. Aí entram os treinamentos e adaptações. Facilitar atividades de higiene, por exemplo, como usar o vaso sanitário, escovar os dentes e pentear os cabelos também fazem parte da missão do terapeuta. Essas ações representam muito para o paciente.
Na alimentação e na cozinha, a intervenção aborda a dificuldade para segurar talheres, copos e canecas, além de orientar formas de reduzir o esforço e a fadiga ao cortar alimentos, descascar vegetais, manusear panelas e abrir potes, caixas, embalagens e lacres.
Para a vida laboral diante de dores e limitações para digitar, usar o celular ou segurar uma caneta, as orientações indicam caminhos para organizar as atividades. Um deles pe compor a postura para reduzir o cansaço. Muitas vezes são nas tarefas domésticas que os sinais limitantes aparecem no momento de varrer, estender roupas e carregar compras. Essas impossibilidades assustam, mas podem ser solucionáveis com TO.
Quando há comprometimento dos movimentos de precisão das mãos, o terapeuta ocupacional pode trabalhar com estratégias para preservar a chamada pinça fina. O movimento se realiza entre o polegar e os dedos e é útil para pegar moedas, girar uma chave e manipular pequenos objetos.
Há métodos para segurar, empurrar e manipular as coisas em geral, que reduzam a exigência sobre as articulações mais dolorosas. Uma atividade que antes provocava dor é reorganizada para que continue acontecendo com mais conforto e segurança.
Se os problemas afetam os joelhos, atividades como caminhar, subir escadas, levantar-se de uma cadeira ou entrar e sair do carro podem se tornar difíceis. A limitação gera receio de quedas e faz com que a pessoa evite atividades fora de casa.
Nesse caso, a Terapia Ocupacional trabalha as transferências e ensina formas mais seguras de se sentar e levantar da cama, do sofá ou do carro. Todo o ambiente é avaliado para que receba adaptações que facilitem a mobilidade e o autocuidado.
Proteção articular e conservação de energia
Uma das vias utilizadas da TO é ensinar a pessoa com artrite ou artrose, a depender da extensão dos problemas, a realizar as atividades com menos gasto de energia e submetendo as articulações a menos pressão. Para isso, o terapeuta avalia a maneira como se realizam os movimentos e orienta mudanças que distribuiem melhor o peso e reduzem a sobrecarga.
Em vez de carregar uma bolsa apenas pelas mãos e dedos, por exemplo, se incluem o antebraço ou o ombro. Panelas, travessas e livros devem ser segurados com as duas mãos, distribuindo melhor a carga. Para movimentar objetos pesados, empurrar utilizando o corpo pode ser uma alternativa mais adequada do que puxá-los apenas com os braços.
Como podemos perceber, a organização da rotina faz parte de um trabalho minucioso. Alternar atividades que exigem mais esforço com períodos de descanso faz com que a pessoa chegue ao limite da dor ou do cansaço antes de interromper uma tarefa. Parece simples, mas cozinhar pode ser possível desde que o preparo ocorra de forma sentada ou ainda dividindo o ato em etapas. O esforço entra em melhor equilíbrio com o uso de panelas leves, descascadores adaptados etc.
Moldando objetos e ambientes
Como é possível indicar adaptações para facilitar o uso de objetos cotidianos, cabos de talheres, canetas, escovas de dentes e pincéis são engrossados para auxiliar a preensão sem exigir que a mão permaneça fechada com muita força.
O ambiente, por sua vez, é modificado de acordo com as necessidades individuais. Na cozinha ou no escritório, os objetos mais usados podem ficar em locais de fácil alcance. Assim, a estratégia inclui não optar por armários muito altos ou muito baixos no banheiro. Barras de apoio e assentos elevados contribuem para tornar as transferências e o banho mais seguros. A escolha e o posicionamento desses recursos consideram a avaliação individual do paciente e as características do ambiente.
Todo esse cuidado tem impacto sobre o bem-estar emocional da pessoa. A perda de autonomia afeta a autoestima, a privacidade e a participação social. Ao encontrar formas de continuar realizando atividades significativas, o paciente preserva uma função física e papéis que fazem parte da sua identidade.
A Terapia Ocupacional olha para o indivíduo
Conviver com artrite ou artrose nem sempre significa abandonar atividades, mudar completamente a rotina ou aceitar a perda progressiva de independência. O acompanhamento adequado permite identificar mudanças na capacidade funcional e agir conforme cada fase da doença.
Nesse processo, a Terapia Ocupacional pode ser uma aliada para quem já enfrenta limitações e para quem percebe os primeiros sinais de que determinadas tarefas estão ficando mais difíceis. A avaliação considera a articulação afetada e a forma como a pessoa organiza a sua vida.
Buscar ajuda quando essas mudanças começam a aparecer evita que pequenas dificuldades se transformem em grandes restrições. O cuidado, portanto, implica em lidar com a dor e encontrar maneiras de manter a pessoa ativa, respeitando seus limites e as características de cada condição.