Perder força, movimento ou capacidade para realizar atividades que antes faziam parte da rotina não é apenas uma mudança física. Quando uma pessoa deixa de conseguir trabalhar, cozinhar, tomar banho, escrever, dirigir, cuidar da casa ou realizar outras tarefas de forma independente, também pode precisar lidar com frustração, medo, ansiedade, isolamento e perda de autoestima.
É por isso que precisamos considerar a saúde mental durante a reabilitação. A Terapia Ocupacional (TO) contribui para esse cuidado ao trabalhar a relação entre a pessoa, suas capacidades e as atividades que fazem parte da vida cotidiana. O objetivo nem sempre é fazer com que o paciente volte a realizar uma tarefa exatamente como antes. Em muitos casos, é preciso encontrar uma nova maneira de fazer.
A perda de movimentos pode afetar a saúde mental
Uma lesão, doença neurológica ou outra condição que provoque perda de funcionalidade muda a rotina de maneira repentina. Uma pessoa que sofreu uma lesão no braço, por exemplo, pode ficar preocupada não apenas com a recuperação do movimento, mas também com a possibilidade de não conseguir trabalhar ou cuidar de si mesma.
Esse tipo de preocupação pode interferir na própria recuperação. A dor, a ansiedade, o medo e a insegurança diante de uma nova condição dificultam a adaptação e a participação no tratamento.
Isso não significa que a mente seja responsável pela doença ou que uma limitação física possa ser controlada apenas pelo pensamento positivo. Mas que corpo e saúde mental estão relacionados e que é essencial prestar a atenção no sofrimento emocional no processo de cuidado.
Medo, nervosismo e insegurança fazem parte da experiência de quem está diante de uma nova limitação. A pessoa pode pensar: “Será que vou conseguir trabalhar?”, “Vou precisar depender dos outros?”, “Como vou cuidar dos meus filhos?” ou “Será que vou voltar a fazer o que fazia antes?”.
A Terapia Ocupacional olha para essas questões a partir da vida cotidiana.
O papel da Terapia Ocupacional é ajudar a reaprender
A Terapia Ocupacional ajuda a pessoa a encontrar novas formas de realizar atividades que antes pareciam impossíveis.
Isso envolve treinar movimentos, adaptar atividades, modificar o ambiente, utilizar recursos de tecnologia assistiva ou dividir uma tarefa em etapas. Também significa reorganizar a rotina para que a pessoa mantenha atividades importantes enquanto desenvolve novas habilidades.
Assim, o tratamento foca no que aquele movimento permite que a pessoa faça em sua vida.
A reabilitação após um AVC é um exemplo. A depressão está entre as complicações que podem ocorrer depois do acidente vascular cerebral, e a Terapia Ocupacional integra o processo de recuperação ao trabalhar atividades de vida diária, função dos membros, autonomia e participação social.
Esse trabalho contribui para que o paciente volte a perceber possibilidades em sua rotina. Em vez de concentrar o tratamento somente naquilo que perdemos, a TO também trabalha para desenvolver, adaptar e aproveitar as capacidades que a pessoa mantém.
Saúde mental interfere na reabilitação
O estado emocional pode influenciar a maneira como uma pessoa enfrenta o tratamento, participa das atividades e se adapta às mudanças.
No caso de um paciente que passou por AVC, a depressão é uma condição frequente e dificulta a recuperação e a participação nas atividades de reabilitação.
Por isso, uma pessoa que chega à Terapia Ocupacional por uma dificuldade motora também pode apresentar necessidades relacionadas à saúde mental. O contrário também acontece. Pessoas que chegam ao atendimento com a saúde mental frágil podem apresentar dificuldades motoras, cognitivas ou funcionais que vamos olhar no tratamento.
A TO identifica sinais quando o sofrimento emocional interfere na rotina e no processo de reabilitação. Quando necessário, o paciente pode segue para acompanhamento psicológico ou psiquiátrico, conforme a necessidade. A proposta não é substituir essas áreas, mas integrar o cuidado.
Quando a mão deixa de fazer o que fazia
As mãos ocupam um lugar importante na realização de atividades cotidianas. Escrever, cozinhar, trabalhar, segurar objetos, vestir-se, cuidar de outra pessoa ou realizar uma atividade profissional são ações que podem depender diretamente delas.
Por isso, problemas que comprometem as mãos têm impactos que ultrapassam a limitação física.
Uma pessoa com uma lesão ou condição que afete a mão pode ficar angustiada diante da possibilidade de perder produtividade ou de não conseguir exercer sua profissão. Em situações como essas, a Terapia Ocupacional trabalha a recuperação funcional e pensa em adaptações que permitam ao paciente manter ou retomar atividades importantes.
O mesmo raciocínio vale para diferentes condições. Pessoas com lesões relacionadas ao trabalho, por exemplo, chegam ao tratamento depois de períodos de dor, afastamento e preocupação com a própria capacidade profissional. Em situações associadas ao estresse ocupacional ou ao burnout, é importante considerar o conjunto de fatores que está afetando a vida daquela pessoa, e não apenas a região do corpo que apresenta sintomas.
A família precisa ser considerada
Quando uma pessoa perde autonomia, a mudança geralmente alcança quem está ao redor.
Em situações como a doença de Alzheimer, familiares e cuidadores podem assumir parte das atividades que antes eram realizadas pelo paciente. Isso gera sobrecarga física e emocional e afeta também a saúde mental de quem cuida.
Dessa forma, a Terapia Ocupacional orienta familiares e cuidadores sobre adaptações da rotina, divisão de tarefas, formas de estimular a autonomia possível e maneiras mais seguras de realizar atividades.
Preservar a independência do paciente, quando possível, reduz a quantidade de tarefas que precisam ser assumidas pelos cuidadores.
Saúde mental é parte da reabilitação
No Setembro Amarelo, falar sobre saúde mental significa olhar para as mudanças que uma doença ou lesão pode provocar na vida de uma pessoa.
É claro que a Terapia Ocupacional não substitui o acompanhamento psicológico ou psiquiátrico, tampouco atua isoladamente diante de quadros de depressão, sofrimento psíquico intenso ou risco de suicídio. Seu papel está em integrar esse cuidado, trabalhando para que a pessoa encontre formas possíveis de realizar suas atividades, reorganizar sua rotina, preservar sua independência e participar novamente da vida diária.
Em alguns momentos, recuperar um movimento será a principal conquista. Em outros, será aprender uma nova maneira de fazer algo que antes parecia simples. Para a Terapia Ocupacional, esses avanços fazem parte do cuidado com a saúde mental.
A lição máxima que podemos tirar de uma situação de sofrimento físico que traz dores psíquicas é que a vida é reaprender. E, muitas vezes, reaprender durante o caminho.